domingo, 8 de junho de 2008
Claudia Washignton
As relações e ações geradas a partir da proposta do 4territórios podem ser sintetizadas para mim nesses dois termos, contraste e complementaridade.
Contrastes observáveis no modo de pensar imagem, no modo de agir no mundo, nas escolhas entre o processual e o objeto acabado, nas referências, na geografia, na fala, no movimento . . .
Complementaridade porque no fim das contas não precisamos chegar a um denominador comum, pude observar no outro (meu espelho invertido), muito daquilo que penso e quero.
O relato que segue trata desse lugar de contraste e complementaridade na experiência do cotidiano.
De quando Gustavo, Andrei e Flávio estiveram em Curitiba
Uma terça-feira, acabávamos de nos instalar numa casa alugada no bairro Água Verde, segunda noite na casa. Era uma hora da manhã quando fui ao e/ou, no Bom Retiro, finalizávamos um trabalho. GAF[1] estava acompanhada de mais duas pessoas e projetava outras histórias em vídeo na parede da garagem . Voltei às duas da manhã, Lúcio deu uma carona, paramos em frente à ∞∞[2] e pensamos que GAF dormia.
Logo que adentrei a casa percebi que tanto GAF quanto as outras duas pessoas estavam acordadas ... e brincavam escandalosamente.
Encontrei algumas pessoas enquanto bebia água na cozinha, fui dormir...Pensei se meu sono seria contínuo ou entrecortado pelos risos e gargalhadas. Dormi.
Lúcio me liga, é outro dia, e me pergunta sobre uma festa ou invasão que ocorrera na casa e que teria incomodado os vizinhos (gente subindo em árvores, fotografando. Um horror!). Segundo notícias, a polícia foi chamada, esteve no local e repreendeu GAF, como GAF não atendeu a solicitação de silenciar, a polícia teria voltado ao local mais tarde e calado GAF definitivamente. Porém isso não bastou para a vizinhança perturbada.
1. GAF foi o provocador de uma situação que envolveu diretamente mais 6 agentes;
2. A polícia só existe pela capacidade de simulação do vizinho;
3. O vizinho nunca dirigiu-se diretamente a GAF;
4. O mercado imobiliário está envolvido;
5. Lúcio foi o último a saber.
Esses dois elementos síntese servem tanto para quando recebi Gustavo, Andrei e Flávio em minha casa, quanto para quando estive hospedada na casa de Andrei, andarilhando pela cidade ou na praia lotada.
No exercício do lugar e na distância de casa outras palavras surgiram, um chavão de viagem (saudade), uma referência do processo (contraste), uma incongruência (estabilidade), uma outra abordagem (revelação), uma ambiguação útil (euphoria), que serviram de pontes para as relações que busquei na intervenção, muito mais atitude relacional.
Aguardo e trabalho nas reverberações . . .
1]Sigla para Gustavo, Andrei e Flávio, que a partir de agora servirá para denominá-los como uma unidade vivencial em trânsito.
[2]Infinito espelho infinito, casa localizada no bairro Água Verde, rua Octávio Francisco Dias, nº 818.
Gráfica Utópica ou Circo dos Sonhos
Entre os dias 23 de março e 3 de abril foi realizado em Curitiba a primeira parte do intercâmbio entre artistas, do projeto 4 Territórios de Beatriz Lemos.
Claudia Washington recebeu Gustavo Speridião, Andrei Muller e Flávio Vasconcellos – que realizam trabalhos em grupo e assim chamam de Gráfica Utópica ou O Circo Dos Sonhos.
Durante este período o contato entre o grupo e Cláudia também foi somado com mais 2 elementos distintos e entrelaçados: o grupo Orquestra Organismo e um espaço e coletivo chamado E/OU.
O resultado da interseção destas diversas esferas da vida – do indivíduo e do coletivo, das cidades e das leis, do cotidiano e do extraordinário, da militância e da alienação, da rua e da casa, do singular e do plural - fica relato abaixo:
Sobre os dias de GAF
GAF é uma sigla elaborada por Cláudia Washington ao referir-se ao trio
-Gustavo, Andrei, Flávio-
Ou seria:
Grande Azar, Fudeu!
A casa número 818 tinha acabado de ser alugada e o senhor que consertou a luz é cego.
Recolhi goiabas podres durante toda a manhã.
Chuva e sol. Subi na árvore com a senhorita washington.
Conversamos sobre perdas.
Um vento frio empurra os pensamentos e o corpo anda leve. Totalmente disperso sem disciplina e três sonos.
Como se estivesse naquela calmaria depois ou antes da tempestade.
Contempla distraído o horizonte deixando cada vez mais as outras forças atuarem enquanto aguarda olhando o museu do olho.
A casa vazia.
Tudo ainda por fazer. Alguns lugares não tem luz e ainda esperamos a água chegar.
O Livro do Desassossego de Fernando Pessoa é utilizado como oráculo:
“O raciocínio é apenas uma outra espécie de sonho.”
Mais uma vez o oráculo estava certo.
E assim rimos mais duas vezes.
Surge mais um elemento novo aqui – MY LORD – um personagem metafísico fundamental para resolver de vez questões como acaso e coincidências.
Um dia, andando com Cláudia – A Silenciosa - nas ruas antigas do Rio de Janeiro, a cidade desplanejada acertou na perna esquerda de Cláudia na ida e na perna direita de Cláudia na volta. Quando estávamos na árvore, do quintal dos fundos de sua casa em Curitiba, ela me contou sobre algumas avarias que sofreu durante a infância. Relatei também meu vasto currículo de sangue, feridas e cortes.
Minha cabeça cilíndrica dá-me uma aparência de escultura das ilhas de páscoa (os moai). Que ironia da vida, quando fui para Curitiba encontrar com Cláudia a Inca, no feriado de Páscoa. My Lord sempre pregando peças.
Na janela da casa uma marca de bala. No jardim dos fundos recolhendo goiabas podres durante uma manhã, achei a cápsula de uma bala e a mostrei para meu Lord.
Me perdi 34 vezes indo atrás de um Banco do Brasil e dei 3 informações para pedestres (raros).
Quando os Modos Horríveis chegaram do Rio achamos uma árvore de louros (tempero de feijão preto) e imediatamente achamos um lar. Nos abraçamos e choramos muito. Ali nos tocamos e sentimos e/ou calor dos nos corpos e/ou falamos muito sobre o cosmos.
Ficaríamos ali até sentir fome e/ou então descer e atravessar o bairro inteiro de água-verde. VerrRrrdí (com voz de Drack – o alienígena do filme Inimigo Meu – um filme que trata de intercâmbio planetário). Andamos até o centro da cidade para comer gordura e carne, queijo, muito queijo e/ou mais uma rodada de cebolas fritas pingando gordura e/ou sabor. Passamos por uma rua com o bom nome de PETIT CARNEIRO ou cordeiro.
No caminho não achamos ninguém.
Andamos porque não sabiam dizer como pegar algum transporte coletivo.
Pequeno Comitê Malandro
Flávio disse após tantos choques culturais: “Na verdade somos um tipo de “PETIT PODES CRÊ”. Uma genial junção de Pequeno Comitê com a malemolência carioca.
28 de março
Passamos o dia na árvore e no Jardim. Dormimos quando o dia clareou e a garagem estrondou. Neste dia percebemos sem querer que apesar de sermos 3 andamos em 4.
Água-verde é um bairro burguês e em curitiba a alma pode ser cinza.
É raro encontrar alguém na rua, música alta e pessoas sorridentes.
Na casa havia uma árvore de goiaba e uma de feijão preto.
Não nos perdemos muito e não achamos nada pois não procuramos nada.
Um dia acordamos com uma grande folha de papel pendurada na parede da casa ainda não ocupada pelos ocupantes. Na folha a frase:
“Tecer grinaldas para, logo que acabadas, desmanchar totalmente e minuciosamente. Beijos Cláudia”
3 pessoas fugiram quando pedimos informação. Dois seguranças de banco empunharam armas e uma senhora enfartou ao ser abordada.
Aí encontramos a Karina. Que não acha nada mesmo.
Mas achamos o número oitocentos e dezoito na rua Otávio Francisco Dias.
Karina faz esculturas em parceria com um cachorro e/ou gato.
Meu Lord também ajuda.
Curitiba tornou-se um ambiente indecifrável.
Era tarde da noite e Cláudia – A Silenciosa estava na casa na mesma posição em que a vimos pela manhã editando o som de um filme. Fomos para a garagem quando repentinamente uma onda de alegria e entusiasmo invadiu este grupo de amigos estranhos. Andrei é um russo criado na Bahia. Flavinho jura que é uma Pantera Cor de Rosa. Gustavo acha que é um playboy. Karina uma Virginia Wolf que afoga no garfo as suas lembranças. A Nana pensa que é a Barbie. Nesse enebriante ar de loucuras nossos amigos conversaram principalmente sobre a questão das fezes no sexo anal e sobre o sexo oral durante o período da menstruação . o clima era de muita festividade e saliência. A conversa esquentou mesmo quando o assunto foi: você olha para trás quando estão te comendo de quatro? Ou como será que é morrer em um acidente de avião como aquele da Gol na amazônia.
Aí pensei que 818 poderia ser “Gordinho Magrinha Gordinho”. Uma casa ménage.
Na hora todos sentiram saudade de comer gordura queijo e carne e assim gritaram meu Lord.
Em homenáge a casa a gente colocou um filme de fino trato. O Circo dos Sonhos correu solto nas paredes da garagem transbordando malemolência e marotice. No final o pranto invadiu todos que em um só coro gritaram: “ARTE! ARTE!”
Lembro que nesta hora meu Lord onipresente ficou muito feliz.
Os punhos ficaram fechados e apontados para o alto. Cantou-se a Internacional durante toda a madrugada.
O que ocorreu naquela manhã foi registrado em vídeo. Uma outra realidade tinha se instaurado naquele momento. Novas realidades surgirem em um dado momento é bastante comum no cosmos disse. Existem bilhões e bilhões de novas realidades atravessando as atuais a todo o momento.
4 risadas.
Então, ao fim da noite, Gustavo colocou a câmera no telhado apontada para céu. Ficou registrada assim a passagem atravessada de duas realidades. 818.
Dormi na árvore.
Assim acordamos eu e Flávio, A Pantera, antes de Andrei o Russo Analfabeto. Já devia ter passado das 8 e 18 da manhã.
Um sol novo nos dourava.
8 1 8. Dois homens exatamente iguais a nos dois nos perguntam da rua empurrando suas carroças: Aí é abrigo irmão?
Falamos confusos que não.
“Está lotado irmão? Tem vaga irmão?”
Não. Não...
Pensaram – olhando a nossa aparência – que a casa que estávamos era um abrigo para sem-teto.
Subimos na árvore do jardim dos fundos, falamos da humanidade e da matéria, tocamos clarinete e violão com um amor no coração no jardim do frontão. Entoamos belíssimas poesias e ajudamos os cortadores de grama da rua. Um cego precisou de ajuda e atendemos prontamente. Muitos pássaros se aproximaram de nós. Até mesmo os insetos sentiam em nós uma vibração áurea.
Às 8 e 18 da noite, sem queijo carne e gordura no corpo ligamos para Cláudia. Ela disse:
Pois é que história é essa que deu polícia?
Queijo Gordura e Carne.
between 0000-00-00 and 9999-99-99
Tivemos problemas com os vizinhos da casa 818. Tivemos problemas que envolveram a polícia (fato falso) e a imobiliária (fato verdadeiro). Durante uma madrugada de festa na garagem o vidro do carro de Karina foi danificado.
1. festa na garagem
2. imobiliária-mediação-vizinho
3. polícia virtual
4. o problema dos homens de barba na árvore.
5. goiaba x louro
6. mendigos
7. música no jardim a tarde na fruteira
8. vizinhança racista conservadora.
O homem que conserta é cego.
“Você tem que ver que tem gente que trabalha”
-imobiliária sobre a reclamação da síndica sobre os rapazes barbados que sobem na árvore de louros-
Outro dia no parque, estávamos fantasiados e filmando uma cena idílica quando fomos interrompidos por um guarda do parque com arma em punho ordenando que parássemos. Ele disse que:
Era proibido filmagem no parque sem autorização.
(“mas somos apenas turistas”)
Era proibido ritual (entenda como macumba)
(“mas não é um ritual”)
As crianças estão chorando e com medo. Os pais vieram reclamar.
(“?”)
Depois de contra argumentar estes 3 impedimentos, conseguimos continuar o trabalho.
Jogamos sinuca.
BOLA – ROLA
SEM NUCA
Conhecemos Simon, o porteiro do inferno com uma jaqueta de couro escrito: JAVALI VELHO.
No museu Oscar Niemeyer, atuamos com os projetores na estrutura externa do prédio duas vezes. Na primeira – por não termos autorização – tivemos que perder tempo argumentando com a segurança noturna. E a luz do prédio ofuscou a nossa. Usamos as próprias roupas para tampar os holofotes. Na segunda vez- por não ter autorização também – recebemos a seguinte instrução: “Vocês podem até projetar, mas não podem utilizar a energia do museu”.
Moral da História> Os museus não fornecem energia.
Todo Martin Burguer King em Curitiba sofre de STRONG RACISM.
Pedreira Paulo Leminski – Quando o tempo urge.
Cláudia alugou um quarto em um bairro de periferia chamado TAMANDARÉ.
Tamandaré significa depois da volta.
Curitiba, primeiro de abril de 2008
GRINALDAS NO MUSEU
Finalmente projetamos no Museu Oscar Niemeyer. Karinão e Nana no volante. Até tentamos fazer de ônibus mas era impossível. A cidade é feita para quem tem carro como Brasília. Além disso nenhuma pessoa, mas nenhuma mesmo sabia informar nada. Os curitibanos não conhecem nada de Curitiba. Eles negam seu próprio espaço.
Ao final das projeções fomos tomados por uma neblina densa.
As formas puras, expressivas e dinâmicas do prédio contribuíram para uma correlação entre forma e conteúdo de uma maneira avançada. A projeção reflete a arquitetura e a arquitetura refaz as imagens da projeção.
Utilizamos luz para o concreto.
Quem será que conserta a luz no museu do olho?
FIM.
Giseli Vasconcelos
Para compor esta história, participaram desta intervenção vívida os artistas Giseli Vasconcelos, Guga Ferraz, Arthur Leandro, Chris Ribas, Marcos Abreu, Roosevelt, André Amaral, Vinícius e Fabi Borges.
CARTOGRAFIAS DE CONVIVÊNCIAS: http://comumlab.dischosting.nl/blog/
Este relatório é formado por recortes da convivência estabelecida entre artistas de duas regiões para o projeto 4Territórios. O relato inicia-se com a vinda do artista carioca Guga Ferraz até minha casa em Belém, onde já desenvolvo propostas de convivências com artistas e ativistas desde 2005, ocupando as ruas, com a rede [aparelho]-:. Para o trabalho desenvolvido ainda em Belém, chamo-o carinhosamente como UM HORIZONTE INUNDADO.
Trato aqui, das artes impregnada de convivências, que se derramam em tentativas de desordenar o rumo que nossas ruas e cidades direcionam. Estamos aflitos com o poder da polícia e com a violência. Usufruindo muitos menos do que nos é comum, as ruas de todos nós. De onde podemos nos ver, sem paredes, sem propriedades.
A maior intervenção que o poder nas cidades lança para todos nós é simular a visão e limitar cada vez as vistas do olhar infinito.
Comum a 4Territórios: relato de convivência
Era quase um aguaceiro do mês de março, daqueles que costumam também alagar a estrela. Aqui o céu parece calmo mesmo com as chuvas fortes, a força está nos pingos d'água. Foi assim que recebi guga, num dia de chuva de pingo forte.
Na casa, não convenciono nenhuma chegada. E celebrar, acolher, beber e comer. E sempre as longas conversas. E a casa é o dilema da propriedade como espaço privado e espaço comum. A intervenção no espaço privado, a PROPRIEDADE.
Ali eu, guga no 4Territórios e o nosso amigo comum, arthur. A interferência na vida comum, direta e sem frescuras. A realidade cotidianamente vivida.
Recortes da terra úmida.
Raoul Vaneigem: Traité du savoir-vivre à l'usage des jeunes générations) / A Arte de Viver para as novas gerações / The Revolution of Everyday Life
um horizonte inundado
É de lá do Ver-o-peso. Vamos comer, passar pela feira e tomar açai. Conversar olhando pro rio, dum horizonte plano e inundado. Uma tempestade contou nossa historia, interferência na vida e na arte de volver a poesia e política.
É de lá que vemos o homem forte na sua segunda casa. Visitas.
No Tambor da União.
ORIKI DE XANGÔ (fragmentos)
Derruba no barro quem e burro
Ninguém pode corromper o nosso ori
Senhor do saber, olho brilhante
Ele fende alem do alto céu
Murro no muro da mentira
Mata varando o olho do mentiroso
Mata selando porta e porto
Mata quem não sabe pensar
Alajandu, destelha a casa alheia e atelha a sua
Água ao lado do fogo no seio do céu
Alado escala rápido o alto céu
Faz o fogo cair do meio do céu
Índio Armado
E nas idas e vinda mapearam o índio armado. os vídeos. Um Índio foi pra casa do Bené, meu vizinho. os outros pelo centro da cidade, próximo aos pontos históricos.O lado doutor. Fatalidade do primeiro branco aportado e dominando politicamente as selvas selvagens. O bacharel. Não podemos deixar de ser doutos. Doutores. pais de dores anônimas, de doutores anônimos. O império foi assim. Eruditamos tudo. Esquecemos o gavião de penacho
--Oswald da Andrade: Poesia Pau-Brasil
dance dance revolution!
E o caminho lá da rua no fim de tarde, é rua cheia. Pipa bola botecos igrejas cadeiras. De quem são as ruas?
A autocensura mediando às expressões nas ruas. Vozes veladas. O ping-pong do resto das madeiras.Como falamos. Como somos. Qualquer esforço natural nesse sentido será bom --Oswald da Andrade: Poesia Pau-Brasil
Com a minha ida ao Rio de Janeiro, propus uma interferência direta em sua rede social intencionando o mapeamento os espaços, lugares de encontros, a partir de imagens fotográficas (produzidas por amigos, convivas) e localizadores no google maps. Tentei também, de-codificar suas relações pessoais com o universo artístico e político em Santa Teresa, a partir de fragmentos de textos afins. Então assim, O TRABALHO FORMA-SE A PARTIR DOS OLHARES E RECORTE DOS OUTROS. A MAIS DESCARADA EDIÇÃO, SAMPLEAGEM, RECICLAGEM E MIXAGEM DE INTERESSES E IDÉIAS.
Para este trabalho no Rio de Janeiro, especificamente para o bairro de Santa Teresa, denomino de
UM HORIZONTE DE SANTA TERESA. Um dos mais belos horizontes da cidade do Rio de Janeiro pode ser visto dali. Do monte alegre até Praça Aguirre, um largo para Nossa Senhora de Fátima. Ali descansei com um carioca. Pertinho do céu, dos morros e das nuvens. Onde tudo parecia ter o tempo dum sinuoso circuito autorama.
No meio desse horizonte, costumava sentar no fim das tardes para a Rua Guilherme Marconi. Eu não sabia, mas era dali que eu chegaria através da Rua Progresso, no Largo das Neves, meu último dia. Foi de lá, vi muitos, e juntos tomamos suco de laranja. E tentávamos as ruas.
Com essa percepção que tratei toda e qualquer relação pessoal artística com quem convivi, num curto e intenso período. O ócio dum ambiente permissivo para abrandar o olhar e a imaginação. O tempo de quem quer ter tempo, para viver entre os seus e os outros que nos visitavam. Eram os vizinhos e também artistas. A cidade, seu fluxo e circuito, recortado isolado pela linha do bonde.
de Belém para o rio de janeiro
montando mapas, nosso autoretrato.
Aqueles que falam de revolução e luta de classes sem se referirem explicitamente a vida cotidiana, sem compreenderem o que há de subversivo no amor e de positivo na recusa das coações, eles têm na boca um cadáver.
--Raoul Vaneigem: Traité du savoir-vivre à l'usage des jeunes générations) / A Arte de Viver para as novas gerações / The Revolution of Everyday Life
Nada te pertube
Nada te espante
Tudo passa
A paciencia tudo alcança
Nada me pertube
Nada me espante
A quem tem um horizonte nada falta
Só um horizonte basta
-- re-mix Oração de Santa Tereza D'Ávila
Da pelada pro churrasco, Onde estão os negros de Santa Teresa? Na casa do Paulo. Até catita vira-lata estava lá, nos despedindo da metasubcibertrans...
A demanda por políticas compensatórias específicas para os negros no Brasil não é recente e nem está baseada em qualquer modelo estrangeiro. Pelo contrário, insere-se na busca da justiça social em uma sociedade que historicamente se mostra racista, sexista, homofóbica e excludente...Na recente história da luta pela inclusão racial, inúmeras outras iniciativas já demonstraram a pertinência e a acolhida pela sociedade organizada de idéias e projetos que propõem algum tipo de inclusão com recorte de raça. A repercussão positiva de tais iniciativas mostra que elas se adequam perfeitamente aos ideais de justiça partilhados por amplos setores da sociedade brasileira que vêem nas ações afirmativas uma forma legítima de democratizar o acesso de camadas excluídas da população a um tipo de bem (o ensino superior) que historicamente esteve sempre ao alcance de poucos. Os poucos que não coincidentemente partilham um mesmo nível de renda e uma mesma cor.
-- Gilmar Mendes, Exmo Sr. Ministro Presidente do Supremo Tribunal Federal: 120 ANOS DA LUTA PELA IGUALDADE RACIAL NO BRASIL. MANIFESTO EM DEFESA DA JUSTIÇA E CONSTITUCIONALIDADE DAS COTAS
RE: HOJE, vamos nos encontrar num horizonte de santa teresa?
do apartamento 13:
gente aproveito pra mandar as fotinhas da páscoao email do roosi acho que tava erradosegue com cópia pro certo.... e aproveito ampliar pro rubens
e nada de chuva!
HOJE, vamos nos encontrar num horizonte de santa teresa?
então,
roosevelt e amaral sugeriram depois do futebol e isso foi terça, lá no GOMES. guga,
maurício, n(m)iltom, paulo, vinicius e catita ficaram animados com a idéia de uma festa na rua, PRA HOJE.
e ficou assim um encontro na rua, com o Polígono, som do Amaral e projeção, E O QUE OCORRER--no mais velho estilo [aparelho]-: das 16h às 22h, limite sonoro de santa teresa.
fomos atrás de um lugar. insistimos para o LARGO DAS NEVES com ponto de luz no bar (sem custo - a troca é consumir por lá) e ponto de apoio, a casa do amaral. e se rolar conexão podemos (re)transmitir também.estou andando,
Guga Ferraz
Viagem Rio de Janeiro – Belém , Guga Ferraz visita Giseli Vasconcelos
11/03/08- Saída do Rio as 9:15 ,cheguei à casa da Giseli as 13:40 ,como não havia avisado do horário que chegaria ela não estava em casa , fui bem acolhido e depois entendi que fui também, de certa forma ,protegido pelo dono de um bar perto ,onde pude guardar minha bagagem , me proteger da chuva que caia com muita força , e tomar uma cerveja gelada esperando por Giseli. Neste primeiro dia de convivência reencontrei Arthur, que esta vivendo na casa,conversamos e começamos a história deste convívio com muita risada, como amigos que se reconhecem.
12/03/08- Nesta quarta acordei tarde, e ainda com as risadas da noite anterior, relevante para mim este dia foi ter conhecido Martina, a filha linda da Gi ,que quando chegou do colégio correu de lado a outro da casa, um dia normal de convívio na família .
13/03/08- Fui ao Ver –o – Peso e andamos pelo centro antigo da cidade.
14/03/08- Saímos para andar pela cidade, novamente , fui ao centro e com a ajuda de um mapa comecei a perceber os corredores de maior fluxo de pessoas , na tentativa de localizar os melhores pontos para a colagem dos trabalhos de interferência urbana que eu havia planejado para este projeto.Fomos também em uma casa de Reggae.
15/03/08- Um sábado muito chuvoso ,fiquei em casa só saindo no fim da tarde ,com Arthur que tinha como função pegar uma cabra em um antigo porto da cidade , e algumas folhas em uma reserva perto da CEASA ,para os rituais da noite e do dia seguinte .
16/03/08- Dia do Tambor da União ,dia de festa no terreiro, festa incompleta pela ausência de Arthur que por complicações na cicatrização de uma ferida no pé teve que ser internado novamente para cuidar do ferimento;passei metade do dia no hospital ,outra no terreiro.
17/03/08- Um dia chuvoso,para variar. Passei todo o dia com Arthur no hospital.
18/03/08- Dia da colagem da imagem dos índios nas ruas de Belém , com a ajuda de um motorista contratado fomos eu e Giseli para a ação ,colamos em 8 pontos da cidade , depois paramos em um lugar chamado Portelinha , segundo Arthur não é coincidência na cidade de Belém favelas serem batizadas com nomes ou expressões vindas da TV, a Portelinha é a mais nova delas ,neste lugar encontramos o filho do motorista jogando Ping Pong com amigos em uma mesa improvisada com raquetes improvisadas ,e uma destreza de chinês , um jogo rápido, e disputado com ironia .Conheci o Bené vizinho da Gi ,dono de uma boca de pasta de cocaína ,o primeiro traficante velho que conheci na vida, nos contou historias e tomamos umas cervejas ,no fim colei o índio na porta da boca. Serie Galdino.
19/03/08- Fui ao centro da cidade para tentar fazer fotos dos índios ,mas com a chuva me recolhi com Arthur no hospital para aproveitar ao máximo a convivência com o amigo e para mostrar-lhe as imagens feitas no dia anterior.
20/03/08- Com tudo arrumado para minha volta , saí com Giseli e o amigo motorista contratado para beber ,dançar e comemorar as novas amizades .
21/03/08- Volta para o Rio. Saída de Belém as 13:30.
Para Beatriz e Giseli
A dificuldade que tive para colocar os dias de minha estadia em Belém fez com que eu tentasse através da minha memória ,nem sempre boa... fazer uma espécie de diário da estadia com os fatos que me lembrei de cada dia ;mas acho que ainda está muito longe de ser um relatório definitivo ,foi uma viagem , que para muito além de discussões sobre arte ou interferência urbana , discute a interferência que um representa no outro, e no que o outro está envolvido ,com esta viagem eu acho que ligou uma chave na minha percepção do que é inter-ferir o outro , e de como estar atento aos códigos locais pode te preservar de complicações ,ao reagir ou não ao o que é posto.
Para Bia um beijo ,muito agradecido pelo convite e minhas desculpas pela demora deste que ainda está inacabado.
Para Gi ,muitos beijos para ti pra Martinita ,muito agradecido pela estadia ai ,mande noticias ,quando vem pro Rio praqueles seis meses? Vem logo .
Guga.
Daniela Bezerra
Então pela primeira vez O Rio de Janeiro esteve como algo somente bom, sua exuberância em tudo não me abafou ou sufocou como ser. sempre tive a impressão que o Rio ,muito de tudo,coisas boas e também aquelas que não são . O Rio toca te toca dentro e fundo, não sei ou não existe uma explicação para o sentir, tão próprio e seu onde mexe suas busca, suas emoções, seu querer, aquele seu que se torna de todos, coisas como paz, enfim parece ser tudo foco, ou seja, onde coloca os olhos e o coração. O Rio foi bom para mim.
Bombordo
Percebo que assim como Brasília, muito se dá das pessoas e mesmo sendo difícil falar existe muita gente boa e muita gente não boa. O difícil é que aqui em Brasília essas pessoas governam a vida de muitos e este peso é terrível ,quando se vive uma cidade ,como viver um hotel de beira de estrada, passa-se alguns anos e se vai embora .Nasci em Brasília ,meu filho também ,meus familiares são de outro lugar. Como boa parte dos familiares dos filhos do cerrado e interessante ver as misturas que aqui é possível, como um casal onde ele do Pará e ela do Rio Grande do Sul, misturas diversas do povo brasileiro entre si ,como também entre Países dadas
as embaixadas .está se formando uma realidade diversa e rica nas miscelâneas.
Estibordo
O belo e a sensação da necessária limpeza, interna esta noção que guardo das viagens e do que é o mar para mim que vivo naquilo que chamo deserto, viajo carregando meu deserto e sua terra vermelha, cerrado. Encontro-me em tudo que é distante á mim, prédios altos, pessoas na rua, comércio, ruas com nomes de países. Diversidade de coisas, mas uma diversidade diferente de Brasília como uma estrutura que remete a tradição, outra. Então como, diante de tudo, como? De minhas necessidades a cor ,do contexto os números, a necessidade daquilo que parece simples talvez por isso difícil. O primeiro lugar que pensei á frente da igreja da penha sua subida difícil, o peso de sua história e função por demais forte muita coisa quando a busca é o simples. Riscando quadrados pensava na restrição do espaço o Rio é muita coisa restringi ao espaço que me abrigou. Gostei muito da zona Norte penso que pelo mesmo motivo que gosto de Taguatinga, simplesmente vida. Encontrei o ponto, sua história ou a história que se de faz e dá inicio a uma outra (o curtume que o bairro cresce a volta). Recordo da noção de identidade seus números e do que se de faz na busca por uma cor, mar? Céu? Cor?
Bombordo
Ter pontogor aqui foi um presente, muito bem vindo. Ao mostrar a cidade como cidade mesmo que vivo, amo e nasci ,explico de uma maneira poética e subjetiva como são essas coisas a mim .Mostrei lugares que mesmo estando no avião( o projeto asa sul, asa norte) ,são diferentes e vivos .mostrei a cidade livre (Núcleo Bandeirante) sua história ,seu Padre Roque onde evitou seu fim ,nadando que cavar um bunker em volta da igreja ,colocar todo mundo dentro e atear fogo ,assim a cidade livre continua lá . Fomos também a Taguatinga que apelidei carinhosamente de Taguá York. ali sim um lugar que parece uma cidade de verdade ,lembro da exclamação feliz de pontogor :estou me sentindo em casa!”Muitas pessoas caminhando no meio da rua, vida de verdade”. Taguá York é tão intensa. Como pedestre numa cidade que parece ser feita para carros e tirando seu projeto de 500 mil pessoas e hoje se encaminha para seus três milhões, ufa Brasília perdemos muito tempo em paradas de ônibus, pela demora imposta pelos caciques ou pelo cacique ,enfim um metro que nunca deixava perto da onde tínhamos que ir ,engarrafamentos enormes e o pensamento sobre as bicicletas retorcidas presas na arvores . Sou pedestre e fico grata por ter grandes amigos, na verdade é isso que acaba sendo Brasília, pessoas que se pode amar, brigar, sorri. Ir aos bares beber uma cerveja pensar no que se pode fazer hoje que não seja só isso, beber, às vezes se acha, muitas vezes não. A Brasília longe do bloco H ( entende-se aí congresso) ,as pessoas que vivem dentro da maquete (colocação intima da cidade) Sim ,é bonito seus 380 de horizonte e este céu que é nosso mar.Uma cidade que cresce a passos largos ,o governo tenta conter aquilo que toda lógica já diz :este patrimônio cultural da humanidade só poderá ser mantido se for transformado ou o tempo que transforma tudo ,no centro velho da cidade.Elucubrações e devaneios sobre uma cidade que não tem ainda nem cinqüenta anos , a minha Brasília se forma agora e a de meu filho junto com ele se formará outros tempos melhores viram a nós todos. Contei a Pontogor e mostrei visões diversas e como são e foram diversas pessoas que conheceu, lembro-me que ao final. Ele disse que sentia falta de casa, saudade e estava pensativo. Fiquei feliz, pois percebeu um tanto do que Brasília é para quem nasceu e vive no sonho de muitos, fiquei muito satisfeita com seu trabalho de colocar luz numa construção, pois talvez seja este o processo que estamos passando ás véspera dos cinqüenta anos, um piano onde se toca luz.:
Estibordo
As águas parecem confusas, causam enjôo, contudo a viajem neste barco continua e em sua confusão espera o momento de aportar .Uma viajem por duas capitais a que já esteve e a que está .neste sonho do homem de galgar novos espaços .Assim foi a viajem na busca da Índia , o que surge a parti é notório. A Nau continua sua viagem por caminhos outros... Tempos melhores viram!
Pontogor
Daniela me recebeu no aeroporto por volta de meia noite do dia 26 de março. Ela mora com os pais, o filho, Uma pessoa que faz os serviços da casa e a filha desta, em uma casa confortável no Guará 2. A primeira impressão de Brasília é que está afundada nas nuvens, em um giro de 360º o horizonte está por toda parte, sem interrupções.
Conversamos muito sobre nossos trabalhos e eu era bombardeado por informações de todos os tipos sobre o lugar e as pessoas de lá. Muito trabalho independente por parte dos artistas, muita vontade de fazer.
Estipulei que os três primeiros dias seriam um reconhecimento da situação que estava metido. Nesses dias, vagamos despretensiosamente por lugares enquanto eu conhecia muitos artistas.
Nesse primeiro momento fiquei muito empolgado com a geografia do lugar e a organização dos espaços, desenhei alguns mapas e esquemas e cheguei a pensar que desenvolveria algo nesse sentido como proposta de trabalho, mas comecei a reparar que o plano piloto não era tudo, Brasília não era aquilo e as cidades satélites começaram a me chamar atenção. Todavia, a dificuldade de locomoção era muito grande, aquele lugar não foi feito para andar de ônibus e, dessa forma, as caronas com amigos da Dani eram A solução. Rodamos muito de carro.
Os dias estavam passando e eu sentia uma grande dificuldade de improvisar alguma interferência naquela cidade de amplos espaços vazios, sentia que qualquer coisa feita seria engolida pelo lugar e se tornaria um ponto quase invisível. No fim de semana fomos convidados para um almoço na casa de uma amiga (Marta), O lugar seria em uma chácara localizada no Park Way. Eu tinha visto umas fotos de lá dias antes enquanto olhávamos trabalhos de Dani e seus amigos, uma das fotos era muito bonita, era uma casa abandonada onde a obra não foi finalizada. Não tina portas nem janelas, apenas as aberturas onde estas entrariam e ficava em um espaço cheio de árvores a sua volta. Marta me falou que a casa é propriedade de sua família e que eu poderia utilizá-la para realizar algum trabalho. Quando cheguei para o almoço e vi a casa fiquei realmente satisfeito. Daí para frente fiquei determinado a realizar uma intervenção ali.
Comprei muitas lâmpadas e interruptores para desenvolver uma espécie de composição com luz na casa. Essas lâmpadas foram distribuídas pelos cômodos da casa e eu na sala central do primeiro andar controlava com o que eu chamei de "PIANO" (15 interruptores de luz presos em um pedaço de madeira) quando e quantas luzes acenderiam. Passei por volta de vinte minutos compondo uma música visual que podia ser vista pelas casas do entorno. A ação foi registrada em vídeo e fotograficamente como registro do acontecimento. O trabalho foi realizado de noite no dia 05 de março, com a ajuda fundamental de Daniela Bezerra e Marta Mencarini.
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